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Carnaval de Salvador tem coleta inédita de vidro e deve retirar até 170 toneladas de resíduos das ruas
Enquanto milhões de foliões ocupam os circuitos do Carnaval de Salvador, um outro exército trabalha para garantir que a maior festa de rua do planeta também seja um marco de sustentabilidade: são as cooperativas de coleta de resíduos recicláveis, como o projeto Carnaval Solidário Salvador, da Cooperguary e da Cooperbrava, que reúnem 500 catadores e catadoras de latinhas de alumínio, papelão, plástico e PET recolhidos nos circuitos da festa.
Pela primeira vez na história, o Carnaval da capital baiana conta com uma operação estruturada para o recolhimento e reciclagem de vidro, um avanço considerado inédito e que reforça o protagonismo da cidade na logística reversa em grandes eventos. O material, embora proibido nas ruas, aparece em grande quantidade no lixo dos camarotes da folia, de onde são recolhidos por cooperados credenciados, devidamente uniformizados e equipados, e encaminhado à indústria para reciclagem completa.
A iniciativa integra um coletivo formado por mais de 14 cooperativas e cerca de 2.500 catadores, que juntos estimam retirar entre 150 e 170 toneladas de resíduos recicláveis durante os dias de festa, um aumento de até 70% em relação às edições anteriores, que registravam cerca de 100 toneladas.
“É uma novidade histórica. O vidro recolhido não volta para a rua, não vai para o aterro. Ele segue diretamente para a indústria e retorna como um novo produto. Salvador é a primeira cidade a implementar uma coleta seletiva tão ampla no Carnaval, incluindo o vidro”, destaca Edmundo Góes, presidente da Cooperguary.
O vidro é considerado um dos materiais mais estratégicos da reciclagem por ser 100% reaproveitável, sem perda de qualidade. Uma única garrafa pode dar origem a outra infinitamente, reduzindo a extração de recursos naturais e o volume de resíduos descartados.
Economia circular deve injetar mais de R$ 2 milhões na economia baiana
Além do impacto ambiental, a operação representa uma transformação social profunda. A expectativa é que mais de R$ 2 milhões circulem na economia baiana por meio do trabalho dos catadores durante o Carnaval, período que, para muitos deles, traz a oportunidade de conquistar a maior renda do ano.
“O Carnaval é o nosso 13º salário. É quando muitos conseguem reformar a casa, comprar bens e garantir uma segurança financeira maior”, afirma o líder da cooperativa.
Com a redução dos atravessadores, os catadores de Salvador passaram a receber valores até 80% maiores pelos materiais coletados. O quilo da latinha de alumínio, por exemplo, chega a ser vendido por R$ 8, contra R$ 5 ou R$ 6 pagos por intermediários. Além disso, os profissionais contam com Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), uso de balança digital durante a pesagem e apoio na alimentação.
Entre os materiais mais valiosos, a latinha continua liderando, com previsão de coleta entre 80 e 100 toneladas. Já o plástico, o papelão e, agora, o vidro, ampliam a diversificação da renda e fortalecem a economia circular.
De invisíveis a agentes ecológicos reconhecidos
A atuação estruturada das cooperativas também trouxe um impacto simbólico importante: o reconhecimento e a valorização dos catadores como trabalhadores essenciais. Na folia, eles atuam uniformizados, identificados e equipados com EPIs completos, como botas, luvas, capas de chuva e proteção, deixando de ser invisíveis em meio à multidão.
“O catador passa a ser reconhecido como profissional. Ele confia no peso, no pagamento justo e entende que é protagonista dessa transformação ambiental”, reforça Edmundo Góes.
O resultado já é perceptível até mesmo na limpeza da cidade. Com mais resíduos sendo direcionados para a reciclagem, menos material segue para o aterro sanitário, aumentando sua vida útil e reduzindo o impacto ambiental.
Para Flávio Santana Jaqueira, primeiro cooperado cadastrado no posto de coleta da Cooperguary do Carnaval 2026, localizado nas imediações da Rua Afonso Celso, na Barra, “Nós passamos a ter mais benefícios, principalmente quanto ao EPI, que é muito importante para a nossa higiene e proteção. Passamos a ser mais assistidos e a ter mais poder ativo, temos mais voz. Antigamente trabalhávamos à deriva, sem proteção, sem metas. Esse ano temos metas que, querendo ou não, nos oferecem um valor a mais e que nos estimula muito mais”.
Por FLAMARION REIS
