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David Batchelor integra a exposição coletiva "Através", da Galeria MITS
A MITS, fundada por Roger Supino e reconhecida pelo olhar sensível e curatorial voltado para novas vozes da arte contemporânea, apresenta a partir do dia cinco de fevereiro ‘Através’, nova exposição coletiva que reúne obras de cinco artistas: David Batchelor (1955), Alexandre Canonico (1974), Rafael D’Aló (1981) Maria Luiza Toral (1998) e Maria Tereza Bomfim (2001) e convida o público a deslocar o ponto de vista e observar aquilo perceptível aos olhos, mas que sustenta a obra como os materiais, gestos e processos.
Desde as vanguardas do século XX, a arte vem gradualmente deslocando o foco do objeto acabado para aquilo que o antecede a estrutura. Em Através, esse movimento se manifesta na recusa da transparência como promessa. Aqui, ela atua como território expandido que opera simultaneamente como conceito, metáfora e matéria que tradicionalmente permanecem fora do campo de visão.
No centro de ‘Através’ está a pesquisa de David Batchelor (1955), artista e teórico cuja obra tem sido fundamental para repensar as relações entre cor, luz e cultura urbana. Em três trabalhos da série Concretos, apresentados como eixos centrais da mostra, blocos de concreto incorporam fragmentos de acrílico transparente e colorido. O contraste entre peso e leveza, opacidade e luminosidade tensiona a ideia de permanência e revela como a cor pode emergir do residual, do negligenciado e do banal. A transparência, nesse contexto, evidencia suas próprias contradições.
A transparência como processo também se afirma na obra de Maria Luiza Toral (1998), que trabalha a partir de resíduos tecnológicos descartados em etapas invisíveis da produção industrial, sobretudo materiais translúcidos. A artista transforma vestígios em superfícies pictóricas e escultóricas ao incorporar sistemas de fixação, gravidade e montagem como partes integrantes das obras, Toral explicita o processo e desloca o olhar para aquilo que sustenta o objeto artístico, articulando sua formação em antropologia a sua arte.
Alexandre Canonico (1974) introduz outra dimensão da transparência ao tornar visível o próprio fazer. Sua prática, situada entre arquitetura, escultura e desenho no espaço, utiliza materiais industrializados como madeira compensada, fios, metais e espumas para criar composições geométricas tensionadas. A transparência não está apenas nos materiais, mas na exposição das decisões, dos limites e dos gestos que constroem a obra.
Já Rafael D’Aló (1981) e Maria Tereza Bomfim (2001) exploram a transparência a partir de objetos residuais e sistemas abertos. Em Shutters (2025), D’Aló parte de fragmentos arquitetônicos para refletir sobre circulação, desgaste e os ritmos do ambiente urbano, investigando a tensão entre abertura e bloqueio. Maria Tereza Bomfim, por sua vez, ativa a parede como elemento indispensável à obra, fazendo da montagem e da percepção partes inseparáveis do trabalho. Em sua série Arpejos (2025), fragmentos de latão suspensos por fios de aço desenham ritmos no espaço, explorando peso, suspensão e instabilidade. Suas obras funcionam como composições abertas, nas quais montagem, espaço e percepção se tornam indissociáveis.
Através propõe a transparência como exercício contínuo de revelação parcial. Um convite a observar aquilo que sustenta a forma, aquilo que antecede o objeto e aquilo que permanece quando o objeto, isoladamente, já não é suficiente.
Por Giovanna Morrone
