Foto: André Frutuôso
Semana da Mãe Preta começa amanhã (15) com homenagem a mulheres que construíram a história do Ilê Aiyê
A memória, a resistência e a ancestralidade das mulheres negras que ajudaram a construir a história do Ilê Aiyê, do Curuzu e de Salvador voltam ao centro das reflexões a partir desta terça-feira (15), com a abertura da Semana da Mãe Preta 2026. Realizado pelo Ilê Aiyê desde 1979, sempre no mês de setembro, o encontro gratuito segue nos dias 16 e 18 de setembro, no Terreiro Acè Jitolu, no Curuzu. Com curadoria das netas de Mãe Hilda, Valéria Lima e Val Benvindo, a edição deste ano tem como tema “Mulheres Negras: Memória, Resistência e Ancestralidade”.
A programação de abertura começa às 14h30, com a exposição fotográfica “Mulheres que constroem a nossa história”, reunindo imagens de Mãe Hilda Jitolu, Eugênia Lúcia e outras mulheres que marcaram a trajetória do Ilê Aiyê, do Terreiro Acè Jitolu e da comunidade do Curuzu. Às 15h, uma mesa presta homenagem a Eugênia Lúcia, idealizadora dos Cadernos de Educação do Ilê Aiyê, com a participação de Vovô do Ilê, Arany Santana, Valéria Lima e Val Benvindo. O primeiro dia terá ainda a exibição do filme “O Dia de Jerusa”, às 16h30; a roda de conversa “Ainda temos muito para viver: mulheres negras, tempo, desejo e liberdade”, às 17h; e um pocket show da cantora Jann Souza, às 18h.
A Semana da Mãe Preta parte do reconhecimento de que a história do Ilê Aiyê também foi construída por mulheres negras que, por meio da educação, da cultura, da organização comunitária e da resistência, abriram caminhos para as novas gerações. A programação propõe aproximar essas trajetórias das questões vividas pelas mulheres negras no presente e das possibilidades de transformação do futuro.
De acordo com Valéria Lima, a Semana da Mãe Preta é um marco no processo de construção do bloco Ilê Aiyê enquanto entidade política. “É um evento que nos ensinou muito e que acompanhamos desde cedo, por meio das exposições fotográficas, rodas de conversa e encontros entre mulheres negras. Para mim, a Semana da Mãe Preta é um berço, e poder construí-la junto com Val, minha prima, é um marco também para nós, hoje profissionais com nossas vidas e carreiras consolidadas”, fala com orgulho.
A homenagem a Eugênia Lúcia reconhece especialmente sua contribuição para a educação antirracista e para a valorização da cultura afro-brasileira. Sua trajetória se conecta à de outras mulheres que ajudaram a consolidar a atuação cultural, educativa e comunitária do Ilê Aiyê, entre elas Mãe Hilda Jitolu, matriarca da instituição.
Segundo Val Benvindo, manter vivas essas histórias é também uma forma de preservar o legado e manter acesa a chama da ancestralidade. “Foram mulheres que pavimentaram esse mundo quando eu nem estava aqui e quando muitas de nós, que hoje ocupamos lugares de poder e espaços importantes, nem sonhávamos estar aqui. Elas estavam aqui quando tudo era mato e capinaram esse mato para que hoje a gente pudesse estar sendo quem nós somos”, afirma.
Ainda nesta terça-feira, o filme “O Dia de Jerusa” traz para a programação o encontro entre diferentes gerações. Na sequência, a roda “Ainda temos muito para viver: mulheres negras, tempo, desejo e liberdade” propõe uma reflexão sobre o direito das mulheres negras de viver plenamente todas as fases da vida. Envelhecimento, autonomia, memória, desejo, liberdade e reinvenção estão entre os temas do encontro, que questiona estereótipos que associam mulheres negras mais velhas apenas ao cuidado, ao trabalho e à resistência.
A conversa destaca o direito de construir novos projetos, amar, desejar, descansar e imaginar outros futuros em qualquer idade. Participam Letícia Sotero e Cida Garcia, com mediação de Val Benvindo.
Ancestralidade que se reinventa - Na quarta-feira (16), a Semana da Mãe Preta amplia o olhar para questões que atravessam a vida e a atuação das mulheres negras na contemporaneidade. Às 14h30, a roda “Moda Afro-brasileira: Identidade, Ancestralidade e Empreendedorismo” reúne a estilista Dete Lima e a empresária Najara Black para discutir a moda produzida por mulheres negras como expressão de identidade e resistência cultural, espaço de valorização da ancestralidade e também possibilidade de geração de renda.
Às 16h, a roda “Masculinidades Negras, Saúde Mental e os Impactos nas Vidas das Mulheres Negras” propõe uma reflexão sobre as construções sociais das masculinidades negras e seus reflexos nas relações afetivas, familiares e comunitárias. A discussão também aborda como o cuidado com a saúde emocional dos homens negros pode contribuir para o enfrentamento das violências que atingem as mulheres negras e para a construção de relações mais saudáveis e igualitárias. Participam o historiador Dofono Hinxi e o psicólogo Diego Wellerson.
Para Val Benvindo, esse legado se atualiza também na forma como o próprio Ilê Aiyê comunica historicamente às mulheres negras a potência que carregam. “O Ilê tem uma tradição de comunicar às mulheres negras o poder que elas têm, seja através de suas canções, falando sobre a beleza e sobre as características das mulheres negras, seja com seus eventos, como a Noite da Beleza Negra e a Semana da Mãe Preta. E, todo ano, a gente percebe que esse legado continua vivo e atuante. Por mais que, quem chegue hoje, possa não saber quem foi determinada pessoa que passou pelo Ilê, está colhendo frutos da luta de todas as suas mulheres”, destaca.
Memória entre gerações - A programação retorna na sexta-feira (18), às 14h30, com a roda de conversa “Memórias Negras da Bahia”, que contará com a participação de Amanda Tropicana e Urânia Muzanzo. O encontro traz para o centro do debate as experiências, histórias e saberes que atravessam a trajetória de mulheres negras na Bahia.
Às 16h, será exibido o documentário “Juntas pelo Bem Viver: Vozes da Marcha das Mulheres Negras”, que aborda processos de organização política, mobilização social e protagonismo das mulheres negras no Brasil. O encontro contará com a participação de Valdeci Nascimento e pretende estimular uma reflexão sobre o papel da memória e da ancestralidade na transmissão de saberes, na formação de novas lideranças e na organização das mulheres negras.
Na sequência, às 16h30, a roda de conversa “Gerações de Mulheres Negras”, com mediação de Luanda Simax, reunirá diferentes gerações para compartilhar trajetórias, experiências de resistência e estratégias de transformação social.
A Band’Aiyê encerra a Semana da Mãe Preta 2026, às 18h, em uma apresentação que reúne música e celebração à força, à ancestralidade e à resistência das mulheres negras.
A Semana da Mãe Preta é uma realização da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê e do Ministério da Cultura, com coordenação da Caderno 2 Produções e produção do Instituto Mãe Hilda Jitolu. A iniciativa conta com o apoio do ITS Brasil e a parceria do Salvador Capital Afro, da Secult e da Prefeitura de Salvador. O evento tem patrocínio do Grupo Belov e patrocínio master da Petrobras, mantenedores do Plano Anual do Ilê Aiyê por meio da Lei Rouanet.
SERVIÇO
Semana da Mãe Preta 2026
Tema: Mulheres Negras: Memória, Resistência e Ancestralidade
Data: 15, 16 e 18 de setembro de 2026
Local: Terreiro Acè Jitolu – Curuzu, Salvador (BA)
Entrada gratuita
15 de setembro – Abertura da Semana da Mãe Preta
14h30 – Abertura oficial da exposição fotográfica “Mulheres que constroem a nossa história”
15h – Mesa “Homenagem a Eugênia Lúcia”
16h30 – Exibição do filme “O Dia de Jerusa”
17h – Roda de conversa “Ainda temos muito para viver: mulheres negras, tempo, desejo e liberdade”
18h – Pocket show com Jann Souza
16 de setembro
14h30 – Roda de conversa “Moda Afro-brasileira: Identidade, Ancestralidade e Empreendedorismo”
16h – Roda de conversa “Masculinidades Negras, Saúde Mental e os Impactos nas Vidas das Mulheres Negras”
18 de setembro – Programação principal
14h30 – Roda de conversa “Memórias Negras da Bahia”
16h – Exibição do documentário “Juntas pelo Bem Viver: Vozes da Marcha das Mulheres Negras”
16h30 – Roda de conversa “Gerações de Mulheres Negras”
18h – Encerramento com a Band’Aiyê
Por Camila Anjos
