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Quando o corpo pede uma pausa
O corpo fala, mas, em meio a uma rotina intensa, cheia de prazos apertados e excessos de estímulos, nem sempre é ouvido. O resultado disso pode ser visto em sinais como cansaço constante, dores, irritabilidade, dificuldade de concentração, dores de cabeça frequente, tensão muscular e até problemas digestivos. No entanto, ainda que esses sintomas possam ser normalizados, o alerta pode ser o prenúncio de algo mais sério, como o esgotamento físico e mental.
Segundo a International Stress Management Association (ISMA-BR), cerca de 70% dos brasileiros apresentam sintomas físicos relacionados ao estresse que, quando contínuo, ativa o sistema nervoso simpático, levando ao aumento da liberação de cortisol, elevação cardíaca e tensão muscular prolongada, combo que impacta diretamente diversos sistemas do corpo.
Para Leandro Azevêdo, professor da Afya Salvador e clínico geral, “Esses sintomas não surgem por acaso. Eles costumam ser a forma que o organismo encontra de avisar que está tendo dificuldade para manter o equilíbrio diante de uma sobrecarga física ou emocional. Quando essa situação se prolonga, ocorre uma ativação persistente dos sistemas relacionados ao estresse, com aumento da liberação de hormônios como cortisol e adrenalina. Quando esse estado se torna contínuo, persistente, progressivo, há uma piora na qualidade do sono, maior fadiga, alterações de memória e concentração, queda da imunidade, aumento da pressão arterial e maior predisposição a ansiedade, depressão e doenças cardiovasculares”, alerta.
Já Raquel de Alcântara Santos, professora da Afya Itabuna e psicóloga, afirma que os riscos são também psicológicos: “é comum surgirem dificuldades de concentração, irritabilidade, alterações do sono e sensação constante de esgotamento. Segundo estudos sobre estresse e saúde mental, o excesso de demandas sem momentos de recuperação pode comprometer significativamente a qualidade de vida e o bem-estar emocional”, alerta a especialista.
Dados do DATASUS indicam crescimento no número de atendimentos relacionados a problemas gastrointestinais na Bahia, como gastrite e úlceras, associados ao estresse prolongado. A cefaleia tensional é outro problema comum, muitas vezes desencadeada por tensão muscular e sobrecarga emocional, e que atinge 80% das pessoas ao longo da vida, segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia. Além disso, estudo realizado pela Fiocruz aponta que cerca de 40% dos brasileiros enfrentam distúrbios do sono, o que compromete a recuperação do organismo e intensifica o ciclo de desgaste.
Leandro Azevêdo, lembra também que o corpo funciona como um sistema de alerta contínuo. “Antes mesmo de uma doença se instalar, o corpo costuma emitir sinais de que algo não vai bem. O problema é que, na rotina acelerada em que vivemos, muitas pessoas interpretam esses sintomas como algo normal e seguem em frente”.
A especialista destaca ainda que o cansaço persistente, sono que não é reparador, dores de cabeça recorrentes, tensão na região do pescoço e dos ombros, irritabilidade, dificuldade de concentração, lapsos de memória, palpitações, alterações gastrointestinais, maior frequência de infecções e sensação constante de esgotamento, mesmo após os períodos de descanso, são sinais que costumam aparecer antes mesmo do diagnóstico e que, quando ignorados, pode evoluir para quadros mais graves, como doenças cardiovasculares.
“Se esses sintomas forem negligenciados, as consequências podem ir muito além do desconforto. Os riscos do paciente desenvolver hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, e distúrbios do sono, por exemplo, aumentam significativamente. Além disso, a fadiga crônica reduz a capacidade de tomar decisões, aumenta o risco de acidentes, compromete a qualidade de vida e a funcionalidade. O ideal é não esperar o organismo entrar em colapso. Reconhecer esses sinais precocemente e buscar mudanças na rotina, além de avaliação médica quando necessário, é a melhor estratégia para preservar a saúde a longo prazo”.
Já a professora Raquel complementa afirmando que “podem surgir sintomas emocionais associados, como irritabilidade excessiva, ansiedade, dificuldade de concentração, desmotivação e sensação de esgotamento mental. Muitas vezes, esses sinais aparecem de forma gradual e acabam sendo naturalizados pela rotina acelerada, o que dificulta a percepção dos próprios limites. Eles podem causar ainda transtornos de ansiedade, depressão e síndrome de burnout. Em alguns casos, o esgotamento emocional pode afetar diretamente a produtividade, os relacionamentos interpessoais e a capacidade de lidar com situações do cotidiano”, conclui.
Por Flamarion Reis
