Carolina Pamponet alerta para o papel da Fonoaudiologia nos casos de câncer de cabeça e pescoço / Foto: Acervo pessoal
Julho Verde: vencer o câncer de cabeça e pescoço é apenas o começo; recuperar a voz e a capacidade de se comunicar é o próximo desafio
Receber o diagnóstico de um câncer de cabeça e pescoço costuma representar um divisor de águas na vida de qualquer pessoa. A preocupação inicial é vencer a doença, enfrentar cirurgias, sessões de radioterapia ou quimioterapia e superar um dos momentos mais desafiadores da vida. Mas, quando o tratamento termina, milhares de pacientes descobrem que uma nova batalha está apenas começando: reaprender a falar, engolir, respirar e voltar a se comunicar.
Para a fonoaudióloga Carolina Pamponet, especialista em voz e integrante da equipe multiprofissional da Otorrino Center em Salvador e diretora da Fonoclin em Feira de Santana (BA), um dos maiores desafios começa justamente quando o tratamento oncológico termina. "Salvar a vida é o primeiro objetivo, mas devolver autonomia ao paciente também é fundamental. Isso porque muitas pessoas deixam o hospital com dificuldade para falar, alimentar-se ou até mesmo para serem compreendidas pelos familiares. É nesse momento que a Fonoaudiologia passa a exercer um papel decisivo", explica a especialista.
Essa realidade ainda é pouco conhecida pela população, embora seja vivenciada diariamente por pessoas tratadas de tumores que acometem boca, língua, garganta, faringe, laringe, glândulas salivares e outras estruturas da cabeça e do pescoço.
A campanha Julho Verde, criada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, busca justamente ampliar a conscientização sobre essas doenças e incentivar o diagnóstico precoce. Estima-se que, no ano passado, surgiram 39.550 novos casos da doença no Brasil, segundo dados baseados nas projeções do Instituto Nacional de Câncer. Outro dado preocupante mostra que aproximadamente 80% dos pacientes ainda recebem o diagnóstico em estágios avançados, reduzindo as possibilidades de tratamentos menos agressivos e comprometendo o prognóstico.
Muito além da cura
Carolina Pamponet indica que, dependendo da localização do tumor e do tratamento realizado, alterações na voz, na deglutição e na comunicação podem surgir de forma temporária ou permanente. Rouquidão persistente, perda da intensidade vocal, dificuldade para engolir alimentos ou líquidos, engasgos frequentes, tosse durante as refeições, sensação de alimento parado na garganta, alterações na articulação das palavras e limitação dos movimentos da língua são algumas das consequências mais comuns.
Um dos quadros mais frequentes é a disfagia, dificuldade para engolir que pode surgir após cirurgias ou radioterapia. Embora muitas pessoas associem o problema apenas ao desconforto durante as refeições, a condição pode favorecer desnutrição, desidratação e pneumonias por aspiração, quando alimentos ou líquidos seguem para os pulmões em vez do estômago.
Segundo Carolina Pamponet, a avaliação fonoaudiológica permite identificar essas alterações precocemente e estabelecer estratégias individualizadas para que o paciente volte a se alimentar com mais segurança. "Cada paciente apresenta necessidades diferentes. Alguns precisam reaprender movimentos da musculatura oral; outros necessitam de adaptações na alimentação ou exercícios específicos para recuperar funções perdidas."
Nos casos de tumores da laringe, uma das maiores preocupações está relacionada à voz. Mesmo quando a preservação do órgão é possível, tratamentos como cirurgia e radioterapia podem alterar significativamente a qualidade vocal. Em situações mais complexas, nas quais ocorre a retirada total da laringe (laringectomia), o paciente precisa aprender novas formas de comunicação. "É um processo que envolve acolhimento, técnica e muita sensibilidade. Recuperar uma voz significa devolver identidade, autoestima, independência e reinserção social", afirma a fonoaudióloga.
Quem corre mais risco e quais os tratamentos possíveis?
Embora possa atingir qualquer pessoa, o câncer de cabeça e pescoço está fortemente associado ao tabagismo e ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Nos últimos anos, outro fator passou a preocupar especialistas: a infecção pelo HPV, principalmente nos tumores de orofaringe. Entre os sinais que merecem investigação estão a rouquidão por mais de 15 dias; feridas na boca que não cicatrizam; dor ou dificuldade para engolir; nódulos no pescoço; dor persistente na garganta; sensação constante de algo preso ao engolir; perda de peso sem causa aparente. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de tratamentos menos invasivos e melhores resultados funcionais.
Além dos exercícios tradicionais, a reabilitação fonoaudiológica evoluiu significativamente nos últimos anos. Hoje, protocolos personalizados, recursos terapêuticos modernos e tecnologias complementares permitem ganhos importantes na recuperação da voz, da deglutição e da comunicação, sempre integrados ao trabalho de médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e outros profissionais.
Para Carolina Pamponet, no entanto, nenhuma inovação substitui o olhar humanizado. "Tratamos funções essenciais da vida. Quando ajudamos alguém a voltar a conversar com a família, cantar para um neto, fazer uma refeição sem medo ou retornar ao trabalho, estamos devolvendo muito mais do que movimentos. Estamos devolvendo qualidade de vida."
Durante a campanha Julho Verde, especialistas reforçam que a conscientização não deve se limitar ao diagnóstico precoce. É preciso que a população saiba que existe tratamento para as sequelas funcionais da doença e que a Fonoaudiologia é uma das principais aliadas na reconstrução da autonomia dos pacientes. “Vencer o câncer é uma conquista extraordinária. Mas voltar a falar, sorrir, tomar um copo de água sem medo, comer e se comunicar com segurança é o que permite que essa vitória seja vivida plenamente”, enfatiza Carolina Pamponet.
Por Silvio César Tudela
