Vida contemporânea é marcada por uma geração cansada
Dormir oito horas por noite sempre foi considerado uma das principais receitas para manter a saúde em dia. Mas, para um número crescente de pessoas, a conta parece não fechar. Elas dormem, acordam cansadas, enfrentam o dia com dificuldades de concentração e terminam a rotina sentindo que as energias nunca foram completamente recuperadas.
O fenômeno vem chamando a atenção de médicos e psicólogos e já é apontado como uma das marcas da vida contemporânea, composta por uma sociedade hiperconectada, com excesso de estímulos, pressão por produtividade, jornadas cada vez mais intensas.
Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que cerca de 72% dos brasileiros relatam algum problema relacionado ao sono, enquanto a insônia afeta aproximadamente quatro em cada dez pessoas. Na Bahia, os reflexos do esgotamento entre os baianos não ficam atrás. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, somente em 2025, foram registrados 22.587 afastamentos do trabalho relacionados à saúde mental, sendo ansiedade, depressão, fadiga persistente e sensação de exaustão as condições mais frequentes.
Para Fabiana Kubiak, coordenadora do curso de Psicologia da Afya Salvador, a condição nem sempre está relacionada à quantidade de horas dormidas. Para ela, "dormir não é sinônimo de descansar. Uma pessoa pode permanecer oito ou nove horas na cama, mas, se esse sono for fragmentado ou pouco reparador, ela continuará acordando cansada. A ansiedade, por exemplo, mantém o cérebro processando preocupações, o que dificulta atingir fases mais profundas do sono. O estresse crônico prepara o organismo para responder a ameaças, mesmo quando elas não existem. No burnout, o cansaço vai além do físico e favorece um esgotamento emocional decorrente da exposição prolongada ao estresse, principalmente relacionado ao trabalho", destaca a professora da Afya Salvador.
A percepção de que o cansaço é apenas consequência de uma rotina intensa também pode esconder doenças que exigem atenção médica. Alterações hormonais, anemia, deficiências nutricionais, doenças metabólicas, transtornos do sono e problemas cardiovasculares estão entre as condições que podem usar a fadiga persistente como sintomas.
Para Leandro Azevêdo, professor da Afya Salvador e clínico geral, um dos maiores desafios é que a exaustão foi normalizada, fazendo com que muitas pessoas considerem o cansaço constante comum, ignorando sinais que podem ser indicadores de outros problemas de saúde, nem sempre emocionais.
"O cansaço é uma das queixas mais comuns na consulta médica e, na maioria das vezes, está relacionado a fatores como privação de sono, excesso de trabalho, estresse ou sedentarismo. No entanto, quando ele persiste por semanas a meses, não melhora com o descanso ou começa a comprometer a rotina e a capacidade de realizar atividades habituais, deixa de ser um sintoma esperado e passa a merecer investigação, pois pode tratar-se de anemia, alterações da tireoide (hipotireoidismo), diabetes, doenças cardiovasculares, insuficiência renal, doenças hepáticas, infecções crônicas, deficiência de vitaminas, distúrbios do sono (especialmente a apneia obstrutiva do sono), além de transtornos psiquiátricos, como ansiedade e depressão. Em pessoas mais velhas, também é importante lembrar que algumas doenças inflamatórias e até certos tipos de câncer podem se manifestar inicialmente apenas com fadiga persistente", declara o médico.
Outro aspecto que preocupa os especialistas é a relação entre saúde mental e qualidade do descanso. Embora o corpo esteja fisicamente em repouso durante a noite, a mente pode continuar ativa devido à ansiedade, preocupações constantes e estresse acumulado.
A Organização Mundial da Saúde estima que o Brasil possui uma das maiores prevalências de transtornos de ansiedade do planeta, afetando cerca de 9,3% da população. Além disso, mais de um bilhão de pessoas convivem com algum transtorno mental em todo o mundo. Nesse contexto, o sono deixa de ser apenas uma questão de descanso físico e passa a refletir também o estado emocional do indivíduo.
"Ansiedade, estresse e burnout mantêm o cérebro e o corpo em um estado de ativação contínua. É como se o organismo tivesse dificuldade para compreender que chegou o momento de descansar. Já o estresse crônico provoca alterações hormonais, especialmente na produção de cortisol, hormônio importante para a resposta ao estresse. Quando seus níveis permanecem elevados por muito tempo, o organismo encontra dificuldade para alternar adequadamente entre os estados de alerta e de recuperação. No burnout, existe um esgotamento emocional com sentimento de perda dos recursos para lidar com as demandas da vida. Por isso, mesmo dormindo muitas horas, ela pode acordar com a sensação de que a energia não foi restaurada", explica a psicóloga da Afya Salvador.
Já Leandro Azevêdo, destaca que a recuperação de energia não depende exclusivamente do tempo passado na cama. "Dormir bem é fundamental, mas a qualidade da nossa energia depende de um conjunto de hábitos. O organismo funciona de forma integrada, e dificilmente uma única mudança resolve o problema quando o estilo de vida está desequilibrado. Aqui, a prática regular de atividade física, manter uma alimentação equilibrada e a hidratação são as intervenções mais eficazes. Outro ponto importante é o controle do estresse e redução no uso de telas nas uma ou duas horas que antecedem o sono, pois a luz emitida por celulares, tablets e computadores dificultam o adormecer e reduzem a qualidade do descanso".
Por Flamarion Reis
