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Ciência explica os mecanismos hormonais por trás do reganho de peso na obesidade
Embora, por muito tempo, o reganho de peso tenha sido atribuído à
falta de disciplina ou força de vontade, evidências científicas cada
vez mais robustas demonstram que esse fenômeno é resultado de respostas
fisiológicas complexas, programadas biologicamente para proteger o
organismo. Reconhecida atualmente como uma doença crônica, multifatorial
e recidivante, a obesidade envolve alterações profundas nos sistemas
neuroendócrino, metabólico e comportamental, que se intensificam
justamente após a perda de peso.
De acordo com o Dr. Ezio, o organismo humano não interpreta o emagrecimento como um benefício, mas como uma ameaça à sobrevivência. “Quando ocorre a redução do peso corporal, especialmente da gordura, o corpo entra em estado de alerta, ativando mecanismos de defesa energética com o objetivo de recuperar o peso perdido. Esse conjunto de respostas é conhecido como adaptação metabólica”, explica.
Entre as principais adaptações estão o aumento persistente da
fome, a redução da sensação de saciedade, a diminuição do gasto
energético basal e a maior eficiência do metabolismo em armazenar
energia. Na prática, isso significa que a pessoa passa a sentir mais
fome, se satisfaz menos com a alimentação e gasta menos calorias do que
antes, mesmo mantendo o mesmo nível de atividade física. Esse cenário
cria um ambiente biologicamente favorável ao reganho de peso, muitas
vezes inevitável sem acompanhamento adequado.
O controle do peso corporal é regulado principalmente pelo hipotálamo, uma região do cérebro responsável por integrar sinais hormonais e neurais relacionados à fome, à saciedade e ao gasto energético. Após o emagrecimento, ocorre a ativação de neurônios orexigênicos, que estimulam o apetite, e a inibição dos neurônios anorexigênicos, responsáveis pela saciedade. Como consequência, o aumento da fome pode persistir por meses ou até anos após a perda de peso.
Diversos hormônios desempenham papel central nesse processo. A
leptina, produzida pelo tecido adiposo, sinaliza ao cérebro que há
reservas energéticas suficientes. Com a redução da gordura corporal,
seus níveis caem drasticamente, levando ao aumento do apetite e à
redução do gasto energético. Além disso, em pessoas com obesidade, há
frequentemente resistência à leptina, o que dificulta ainda mais o
controle do peso.
Outro hormônio fundamental é a grelina, conhecida como o “hormônio da fome”. Seus níveis aumentam de forma significativa após o emagrecimento, estimulando o apetite e favorecendo a preferência por alimentos ricos em açúcar e gordura. A insulina, além de regular a glicose, também atua como sinal de saciedade no sistema nervoso central. Após a perda de peso, sua redução contribui para a diminuição desse efeito anorexigênico.
Os hormônios intestinais, como GLP-1, PYY e CCK, responsáveis
por promover saciedade após as refeições, também apresentam redução de
sua ação após o emagrecimento. Essa combinação hormonal favorece maior
ingestão alimentar e dificulta a manutenção do peso a longo prazo, o que
explica o sucesso das terapias farmacológicas que atuam justamente
nesses eixos hormonais.
Outro ponto crucial é a desaceleração do metabolismo. “Após perder peso, o corpo passa a gastar menos calorias do que o esperado para aquele novo peso, um fenômeno conhecido como termogênese adaptativa”, ressalta o Dr. Ezio Carneiro Junior. Isso significa que o metabolismo se torna mais econômico, as atividades físicas passam a consumir menos energia e o corpo armazena gordura com mais facilidade. Estudos mostram que essa adaptação pode persistir por longos períodos, mesmo quando o peso reduzido é mantido.
Além das alterações metabólicas, o tecido adiposo exerce papel ativo nesse processo. Considerado um órgão endócrino, ele não “esquece” a obesidade. Durante o emagrecimento, os adipócitos apenas diminuem de tamanho, mas continuam presentes e metabolicamente preparados para reter gordura rapidamente quando há aumento da ingestão calórica. Soma-se a isso um estado de inflamação crônica de baixo grau, comum na obesidade, que interfere na sinalização hormonal e no controle do apetite.
O cérebro também sofre adaptações importantes. Após a perda de peso, há maior sensibilidade do sistema de recompensa, especialmente diante de alimentos ultraprocessados e altamente palatáveis. Isso ajuda a explicar o aumento do desejo por esse tipo de alimento, a relação emocional com a comida e a dificuldade de controle alimentar em ambientes obesogênicos, cada vez mais comuns na vida moderna.
Esses mecanismos fisiológicos explicam por que a maioria das pessoas recupera parte ou todo o peso perdido ao longo do tempo. “É com base nessas evidências que entendemos a obesidade como uma doença crônica, que exige uma abordagem contínua, individualizada e multifatorial, e não soluções pontuais”, conclui o especialista.
O tratamento eficaz da obesidade deve envolver mudanças
sustentáveis no estilo de vida, acompanhamento multiprofissional,
estratégias nutricionais e comportamentais, além de terapias
farmacológicas que atuem nos mecanismos de fome e saciedade. Em casos
selecionados, a cirurgia bariátrica pode ser indicada como parte de um
plano terapêutico abrangente, sempre com foco no cuidado a longo prazo e
na saúde global do paciente.
Sobre Dr. Ezio Carneiro Junior
Formado em meficina pela Universidade Barão de Mauá de Ribeirão Preto em 2007. Especialista pela Santa Casa de Misericórdia de Santos em 2015. Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica desde 2015. Com cursos de aperfeiçoamentos através do Ensino Einstein (Faculdade do Hospital Abert Einstein) - *Interferência da obesidade na fertilidade masculina , *Intensificando o tratamento da Obesidade, *Fisiopatologia da obesidade: Mecanismos e hormônios do reganho de peso, * Distúrbios Psiquiátricos e Obesidade, * Estratégia para a Redução de Riscos Cardiovasculares na Obesidade, *SURMOUNT-5: Tirzepatida e os avanços da Obesidade, *Obesidade e doenças metabólicas – Tratamentos Atuais, *Interferência da Obesidade nas Doenças do Fígado e curso Diabetes - a Global Challenge pela University of Copenhagen
Dr. Ezio Carneiro Jr. está radicado em São Paulo (SP) há mais de 13 anos, onde já realizou mais de quatro mil cirurgias. Desenvolveu sua carreira em cirurgias plásticas reparadoras, contorno corporal e cirurgia em idosos.
Por Melissa Stranieri
